Levanta-te, pé ante pé, faz um esforço.
Aproveita o duche para largares as lágrimas que reprimes durante o dia.
Recompõe-te. Abre a janela, respira, atira o desalento à rua.
Não interessa o formato do teu corpo, os cabelos brancos, a pele flácida, as olheiras, as rugas, olha-te no espelho e tenta adivinhar a imagem que ele te nega.
Veste uma roupa bonita, confortável, desenha um sorriso no rosto.
Vai cumprir a função que o patrão te exige.
Esquece por umas horas os teus desejos, os teus sonhos.
Hora de saída. Passa pelo supermercado, padaria, lavandaria, farmácia, não te esqueças de nada, sabes que só contas contigo.
Põe a chave na porta de casa, entra, arruma as compras.
Despe a roupa bonita, o teu dia acabou.
Mas, espera, ainda tens que fazer.
Prepara o jantar. O quê? Sei lá, qualquer coisa.
Chama-os, senta-te à mesa com eles, mesmo que o estômago negue o alimento, come.
Estás cansada Maria? Doente? Saturada? Desanimada? Quem te dá o direito de te sentires assim?
Tu Maria? Tu dás-te esse direito? Bem, que corajosa!
Depois não te queixes da falta de respeito e compreensão por não cumprires o
teu papel de mulher, filha, esposa, mãe, dona de casa exemplar e perfeita.
Então Maria? Os anos passaram por ti e não conseguiste reter a energia de há 20 anos?
Porque te deixaste engordar? Porque te deixaste emagrecer tanto?
A tua pele, mulher, está uma desgraça.
Como é que nunca conseguiste trabalhar a autoestima? Que fraqueza, Maria.
Abre os braços, abraça os filhos mesmo que eles se esquivem e te tratem com
indiferença.
Abre as pernas Maria ...